8/14
Artigo | Temática Livre
raiva de Linn da Quebrada, nessa leitura, não é reação de quem está em posição de
fraqueza; é a força de quem já compreendeu a dinâmica do poder que a enfrenta e que
sabe que o poder só persegue o que teme.
A pergunta final: “Quem morre sou eu / Ou sou eu quem mata?” é talvez o gesto
mais radical de toda a música. Ela recusa a posição de vítima passiva sem recair na
celebração acrítica da violência. Trata-se de uma pergunta epistemológica, no sentido
mais preciso do termo: quem tem o direito de definir quem é ameaça e quem é
ameaçado? Quem tem o poder de nomear a morte e a vida? A pergunta não é
respondida, e essa recusa de resposta é, ela mesma, uma forma de resistência. Ela
mantém aberto um espaço de indeterminação no qual a ordem que condena Linn da
Quebrada não pode se instalar com tranquilidade.
“AIN'T I A WOMAN?” (2020), DE LUEDJI LUNA: A RAIVA COMO EXIGÊNCIA
“Ain't I a Woman?” (2020), de Luedji Luna, parte de uma provocação histórica.
O título é uma referência direta ao discurso de Sojourner Truth proferido em 18511, na
Convenção dos Direitos das Mulheres em Akron, Ohio, nos Estados Unidos. Naquela
ocasião, Truth, mulher negra, ex-escravizada, abolicionista, questionou, diante de uma
plateia predominantemente branca e masculina, se ela não era também uma mulher,
apontando para a exclusão das mulheres negras dos debates sobre direitos que se
diziam universais. Ao retomar esse título em contexto brasileiro, Luedji Luna atualiza
a interpelação, tornando explícita a continuidade histórica entre a desumanização da
mulher negra no século XIX e suas formas atuais, mais sutis, mas não menos brutais.
1 Em 29 de maio de 1851, Sojourner Truth (1797-1883), mulher negra feminista, abolicionista e defensora dos direitos
das mulheres, proferiu um impactante discurso na Convenção pelos Direitos das Mulheres em Akron, Ohio, nos
Estados Unidos. No mês seguinte, o discurso foi transcrito e publicado no jornal Anti-Slavery Bugle por Marius
Robinson, jornalista que estava na plateia e amigo de Truth.
Deixo a transcrição revisada (Fonseca, 2019): Posso falar algumas poucas palavras? Quero dizer umas poucas
palavras sobre a questão. Sou [a encarnação] do direito da mulher. Tenho músculos como qualquer homem, e
realizo tanto trabalho quanto. Arei e colhi e ceifei e debulhei, algum homem consegue fazer mais que isso? Tenho
ouvido muito sobre a igualdade dos sexos; sou capaz de carregar tanto quanto qualquer homem, e de comer
também, quando consigo comida. Sou tão forte quanto qualquer homem que vive. Quanto ao intelecto, tudo que
posso dizer é, se uma mulher tem uma caneca e o homem um barril — por que a caneca não pode estar cheia? Os
senhores não precisam recear em nos dar nossos direitos por medo de que tomemos mais, — porque não vamos
conseguir tomar mais do que cabe em nossa caneca**. Os pobres homens estão todos confusos, sem saber o que
fazer. Meus filhos, se os senhores detêm os direitos das mulheres, dêem a elas e irão se sentir melhor. Os senhores
terão seus próprios direitos, e eles não serão tanto problema. Não sei ler, mas sei ouvir. Ouvi a bíblia e aprendi que
Eva levou o homem a pecar. Bem, se a mulher desconcertou o mundo, dêem a ela a chance de colocá-lo no lugar.
A Senhora falou sobre Jesus, de como ele nunca desprezou as mulheres, e ela estava certa. Quando Lázaro morreu,
Maria e Marta foram até ele em fé e amor e imploraram que erguesse o irmão. E Jesus chorou e Lázaro saiu com
vida. E como Jesus veio ao mundo? Através de Deus que o criou e da mulher que o pariu**. Homem, qual foi o seu
papel? Mas as mulheres estão se levantando com as bênçãos de Deus e alguns homens se levantam com elas. Mas
o homem está em uma situação difícil, o pobre escravo está próximo, a mulher se aproxima, e ele certamente está
entre um falcão e um abutre.
Revista Coletivo Cine-Fórum | volume 4 | número 1 | 2026 | ISSN: 2966-0513 | Goiânia, Goiás