“O sofrer arranhado pelas palavras”
História e literatura em um “croniconto” rosiano
DOI:
https://doi.org/10.63418/acd4dc70Keywords:
Eric Hobsbawm, Guerra, Guimarães Rosa, “O mau humor de Wotan”, Século XXAbstract
Passados oitenta anos da Segunda Guerra (1939-1945), este artigo realiza um exame comparativo entre a produção literária e a historiografia do século XX, com destaque para Eric Hobsbawm (1917-2012), ao analisar “O mau humor de Wotan”, narrativa que abre Ave, palavra (1970), de João Guimarães Rosa (1908-1967). Emulando a ambiguidade das relações humanas e de poder no período, a ficção rosiana combina estruturas do conto e da crônica, motivo pelo qual denomino essa e outras narrativas de sua experiência alemã de “croniconto”. Nela, o autor retrata o contexto beligerante alemão por meio do casal Hans-Helmut e Márion Heubel, personagens ficcionais e amigos reais de Rosa durante sua atuação como cônsul em Hamburgo, cujas vidas foram devastadas pelo projeto expansionista de Hitler (1889-1945), o “Wotan” do título. Com base em levantamento bibliográfico e no retrato da Alemanha às vésperas da guerra, o estudo desenvolve leitura dialética que mostra como episódios da história ocidental permeiam a ficção rosiana, ao mesmo tempo em que esta preenche lacunas historiográficas. Amparado na Estética da Recepção de Jauss, sobretudo no horizonte de expectativas, o artigo examina o percurso das sociedades ocidentais no “breve século” de Hobsbawm (Era dos Extremos, 1994), buscando compreender formas de subsistir diante da crise dos valores iluministas. A articulação entre literatura e historiografia permite, assim, ampliar a interpretação de uma das faces da contemporaneidade, marcada pela ruína de impérios e pelo abalo da civilidade frente à violência.
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